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| Marine Antunes - palestra na Marabô (Outubro 2013) |
Nasceu em França, a 13 de
Fevereiro de 1990 e vive em Ourém. Licenciou-se em Comunicação Social e
parece uma jovem como tantas outras, mas Marine Antunes é uma verdadeira força
da natureza. Com 13 anos enfrentou uma das maiores adversidades da vida: o
cancro – esse bicho feio que a mudou e fez dela uma pessoa mais consciente e responsável,
mas que não lhe tirou a alegria de viver e o humor que tão bem a caracteriza.
Juntar as palavras “cancro” e “humor” na mesma frase parecia-me uma
tarefa impossível, até que conheci a Marine e o seu trabalho, visível no blog
“Cancro com Humor” e na associação sem fins lucrativos com o mesmo nome. Fiquei
absorvida pela forma como ela trata a doença, quase como se lida com um
daqueles vizinhos de quem não gostamos, mas que cumprimentamos todos os dias
por respeito. Por isso, quando a convidei para o “Na história da gente”,
avisei-a que teria que ser ela a colocar-me travões, mas a Marine não o fez.
Respondeu a tudo sem tabus, sem rodeios e mostrou um lado diferente do que
mostra no seu blog: mais sensível, cautelosa e com medo também. Garante que
fala com o cancro todos os dias, mas sempre de forma “muito tranquila, muito
positiva”, porque “se não fosse esta patada eu não teria aprendido muitas
coisas.”
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| As mensagens positivas da Associação Cancro com Humor |
A aventura iniciou-se em Janeiro de 2013, quando Marine começou a
contar ao mundo a sua história, através do blog. O objectivo era verificar se a
fórmula “Cancro com Humor” passava na prova de fogo, ou seja, se seria aceite e
compreendida. E, atrevo-me a dizer, que os resultados obtidos foram largamente
superiores aos que esta antiga carequinha esperava, pois diariamente é visível
a mudança que este projecto provoca na vida de muitos doentes de cancro,
familiares e amigos: “as pessoas têm reagido muito bem. Estou sempre pronta
para as reacções serem negativas e tenho tido a sorte de serem sempre positivas.
Consigo perceber exactamente aquilo que somos, para onde vamos.” E é esta
certeza, esta garra que cativou quem duvidava das suas capacidades. “Confia em mim. Sei o que faço” -
dizia muitas vezes antes de se lançar nesta façanha que está prestes a dar
novos frutos: o livro está pronto e é uma questão de dias até chegar às
livrarias. Tudo ganha ainda mais importância ao sabermos que Marine está a
fazer tudo com o coração, pois todo o seu trabalho não tem retorno financeiro:
“Faço tudo voluntariamente e com todo o amor possível. Sei que erro, que digo
coisas mal ditas e não faz mal e não me vou martirizar por isto. Sei que faço
companhia às pessoas.” Além da associação, do blog, do livro e das palestras
que dá por todo o país, Marine ainda arranjou tempo para escrever uma peça de
teatro sobre a temática, destinada aos mais novos, denominada “É cancro, é pois
é?”. Considera este “o maior desafio” que tem em mãos, pois falar sobre esta
doença numa vertente infantil, divertida, sem tabus e desmistificando a
quimioterapia não é tarefa fácil. Para isso, criou uma jovem personagem cheia de
Careca Power “encantadora, lutadora,
com as suas falhas e com os seus medos, muito real, mas muito poética também”,
para que “as crianças se sintam orgulhosas da sua luta e pensem que aquela é
também a sua história.”
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| O livro "Cancro com Humor" será lançado no próximo dia 09 de Novembro |
E a história de Marine com o cancro começou aos 13 anos, quando lhe
foi diagnosticado um linfoma non-hodgkin, motivo pelo qual tinha falta de
apetite, cansaço extremo, nódoas negras, dores fortes na coluna, suores
nocturnos e febre constante. “Na altura, não percebi bem o que estava a
acontecer”, confessa. “Reagi mal apenas na primeira noite que fiquei internada em Coimbra. Pela
primeira vez estava sozinha e percebi que iria viver a minha vida de forma
diferente das outras crianças.” Realizou tratamentos de quimio e radioterapia
e, em menos de um ano, Marine melhorou, muito graças à forma inspiradora como
lidou com estas pedras no caminho que lhe permitiram começar a construir o seu
castelo, como diz o poeta. “Nunca achei que iria deixar este Mundo em tenra
idade, era e é obrigatório, para mim, viver com o pensamento positivo na
cabeça.” Mas isso não a torna inconsciente ou iludida, pois “a ideia da morte é
uma ideia permanente, mesmo que pensemos que não vamos morrer, vemos os outros
morrer e, por isso, sabemos que é uma possibilidade.” E Marine tem medo de “passar
a viver num mundo sem as minhas irmãs ou os meus pais - o que o tornaria
insuportável, e de me tornar um ser também insuportável. Mas, felizmente, sou
crente e por isso mesmo, acredito que a morte não é necessariamente o fim e que
estaremos sempre ligados aos nossos verdadeiros amores.” Durante esta viagem,
muitos não tiveram a mesma sorte – “Praticamente, todas as pessoas que conheci
e convivi durante os meus internamentos, faleceram. É tão avassalador e intenso
que não o sei exprimir. Posso apenas dizer que essas dores, essas perdas são a
razão para sofrer de pesadelos crónicos, há mais de dez anos.” É, aliás,
durante a noite que se permite ser mais negativa, pois sabe que quando acordar,
terá novamente um sorriso nos lábios e uma palavra amiga para quem precisa. “A
noite pode ser muito violenta. Estou mais cansada, a minha adrenalina já acabou
e tenho todas aquelas memórias negativas. É o período em que rezo, reflicto,
penso nas pessoas que já partiram, nos carequinhas e suas aflições. Sofro com
eles.” E, por isso, utiliza o humor como um escudo protector: “Rir não
significa que não estejamos a sofrer, muito pelo contrário, pode até ser uma
defesa, uma máscara, mas não pode ser visto como indiferença.” Para o futuro,
os seus desejos são simples: “No dia em que eu não estiver aqui, espero que o
Cancro com Humor nunca morra e que as pessoas se continuem a inspirar umas às
outras e que seja uma corrente de positividade. Este é o maior legado que eu
poderia deixar. Espero mesmo, independentemente das voltas que a vida dá, que
eu nunca deixe de fazer as coisas com um propósito, porque acho que não seria
mais eu.”
Marine diz muitas vezes que se não fosse o cancro seria “uma miúda
mimada e prepotente” e quem a conhece sabe o quão longe isto está da realidade.
Hoje, com 23 anos, é uma daquelas pessoas que dá gosto de conhecer e com quem
apetece falar horas a fio, sobre a vida e a morte, os sonhos e os medos, o tudo
e o nada.
Blog “Cancro com Humor”
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